Por Pedro Kupfer
Publicado originalmente no site yoga.pro.br

Você já escutou a frase do título dentro da sala de prática, pronunciada por um professor que supostamente deveria ser equânime? Acontece que alguns professores de Yoga têm o hábito de cutucar ou agredir seus colegas com chavões desse tipo. Esses professores, que felizmente são minoria, acreditam piamente que o sistema que eles defendem seja o melhor ou o mais autêntico, ou o mais eficiente, ou o “original”.
Qual é a razão de alguns professores teimar em manter viva a controvérsia “o meu Yoga é o melhor”? Pense aí: é o medo. De um lado, medo de estarem errados na sua crença; do outro, medo de que você vá praticar com o professor da próxima esquina (o que acaba naturalmente acontecendo quando as pessoas percebem o quanto essas atitudes são erradas e desnecessárias).
Diga-me uma coisa: isto soa “yógico” para você? Opiniões e palavras fortes podem dar a impressão de que derivam de um lugar justo e aceitável, mas é bem mais provável que elas nasçam no ódio, na intolerância e no medo de quem as sustenta.
Professores de Yoga que usam salas de práticas e blogs como púlpitos para doutrinação ou descarregar suas frustrações em relação ao que os colegas ensinam ou praticam estão perdendo uma bela oportunidade de praticarem a tolerância, a equanimidade e a aceitação, atitudes sobre as quais a tradição do Yoga sempre se apoiou.
O certo e o errado.
Há lugares e lugares para dialogar, e formas e formas de dizer as coisas. Há condutas dharmikas e condutas adharmikas. As condutas dharmikas devem ser elogiadas e apoiadas publicamente. Gestos de alegria e aprovação devem ser dirigidos às pessoas que as ostentam, segundo o sábio Patañjali recomenda no Yogasūtra:“o psiquismo se purifica cultivando atitudes de amizade, compaixão, alegria e equanimidade, diante da felicidade, do sofrimento, da virtude e da equivocação, respectivamente” (sūtraI:33).
As condutas adharmikas devem ser apontadas, também publicamente, para alertar os demais praticantes para que esse tipo de atitude não prolifere, e para que não se corra o risco de achar que adharma é dharma. Não há nada de errado enquanto a isso. Aliás, errado é se omitir e dar de ombros pensando “isso não me diz respeito”, quando algum atropelo é cometido, em nome do dharma ou não.
Tampouco acho que seja errado debater temas como a maneira em que o Yoga vai evoluindo ao longo do tempo, especialmente na atualidade, quando tantas formas híbridas estão surgindo e tantas distorções acontecendo. Mas, existe uma grande distância entre apontar o errado ou questionar construtivamente uma prática, e se arvorar em único dono da verdade.
Bater ou debater?
Uma coisa é fazer o inevitável comentário jocoso sobre o Yoga do cuspe (que existe de verdade!) ou sobre o Yoga para cavalos, ou manifestar uma justa indignação em relação à mistura de Yoga com pornografia. Outra coisa, muito diferente, é alimentar um discurso intolerante e agressivo em relação a todas as formas e tradições que não sejam a própria da pessoa que fala.
Muitas vezes essa agressividade nasce da insegurança, e esta do medo, e este da ignorância. Assim, a ignorância dá lugar a atitudes infelizes nas quais o professor ataca irracionalmente os colegas que não assinam embaixo do seu credo. O discurso do “Yoga superior” é essencialmente idêntico ao discurso da raça superior, ao da religião superior e aos demais discursos que, historicamente, levaram os seres humanos à guerra e ao genocídio.
Em alguns casos, falta muito pouco para os supremacistas do Yoga chegarem à agressão física, ostentando atitudes típicas de adolescentes inseguros que precisam se afirmar agredindo os demais. Recentemente, recebi uma mensagem através do meu site onde uma pessoa que queria estudar e praticar Yoga, com total justiça, se dizia negativamente surpresa com a banalização, as intrigas e a falta de união que percebeu no nosso meio.
Vamos crescer?
Assim, a minha opinião é que esse tipo de discurso supremacista poderia perfeitamente ser deixado de lado, já que não acrescenta nada ao debate sobre o futuro do Yoga (se é que esse futuro importa para nós), assim como não acrescenta nada (pelo contrário, empobrece), a bela variedade de caminhos e pontos de vista que existem no Yoga.
Cabe lembrar que existem vias diferentes para pessoas diferentes, e cada uma dessas vias merece nosso respeito e aceitação. Quando encontramos a maneira de praticar que nos satisfaz e a visão que sacia nossa sede de conhecimento, deveriamos, igualmente, encontrar a tolerância em relação ao Yoga que os demais caminhantes escolheram.
Assim, acredito, estaremos honrando nossos mestres, e aqueles que vieram antes deles. Estaremos honrando os sábios Vyāsadeva, Patañjali, Śaṅkarāchārya, Gorakṣanatha e toda a linhagem de ṛṣis que manteve viva e nos legou essa visão libertadora. Concluo esta reflexão citando o Ṛg Veda:
“Ó homem que procuras a verdade e a sabedoria,
abre os braços e deixa que o conhecimento
chegue a ti de todas as partes.
A verdade é una e os sábios irão
ensiná-la de diferentes maneiras”.
Pedro Kupfer é professor de Yoga, mora em Mariscal – SC e é editor do siteYoga.pro.br