A meditação nas diferentes tradições e o encontro com a ciência contemporânea
Por Alexandre Campelo
A meditação é uma prática milenar presente não apenas nas tradições orientais, como o Yoga e o Budismo. Para surpresa de muitos, ela tem sido praticada pelos místicos cristãos desde o início da cristandade, muitas vezes chamada de “hesicasmo”, “oração silenciosa”, “oração do coração” etc.
Quando investigamos as histórias e as práticas das diferentes religiões, descobrimos que todas elas possuem duas faces, uma interna que podemos chamar de “esotérica” e outra externa, ou “exotérica”.
No lado místico ou esotérico de cada uma, encontramos aquilo que os antigos yogis, mais particularmente Patânjali (o sistematizador do yoga) definiram por “Dhyana”, traduzido para o português como “contemplação” ou “meditação”.
A prática da atenção no fluxo da respiração (pranayama) existiu entre os antigos “pais e mães” do deserto (cristãos eremitas que viveram no Egito, Palestina e Síria entre os séculos III e VII) que se isolavam em cavernas para meditar.
A prática do hesicasmo (quietude) foi uma constante nas vidas dos grandes santos do cristianismo: Teresa de Ávila, São João da Cruz e São Francisco de Assis, por exemplo. A palavra hesicasmo vem de “hesychia” que quer dizer “quietude”. Teresa de Ávila foi perseguida pelos teólogos censores por escrever textos que falavam sobre quietude, silêncio, encontrar Deus na paz interior.
No budismo, conhecemos práticas como o vipassana, já os antigos judeus diziam que a salvação estava no “alento”; e os yogis da Índia sempre ensinaram o pranayama (Prana significa energia vital). O pranayana é a prática do controle da energia vital através do controle da respiração.
No sufismo, o lado místico do islamismo, a atenção ao coração (semelhante aos hesicastas cristãos) é uma prática conhecida como “meditação sufi do coração” e que tem como objetivo “submergir” no mais profundo sentimento de amor.
Mais recentemente, a própria ciência empírica ocidental dedica-se a pesquisar os benefícios das práticas de contemplação.
Diferentes estudos comprovam a eficácia da quietude, do serenar a mente, adentrando um novo estado de percepção.
Como um método científico, a meditação tem se transformado em poderosa ferramenta para a saúde física e mental, pois permite que a consciência “submerja” nos níveis mais profundos da psique, descobrindo ali sua fonte interna de paz, alegria e contentamento.
A meditação, hoje, é uma prática presente não apenas nas instituições religiosas, mas em universidades e empresas. Atende religiosos e não religiosos, e beneficia a todos, trazendo maior poder de concentração nos afazeres diários, maior paz e conforto, e até a cura de doenças psicossomáticas.
Estudos recentes têm revelado os benefícios de uma técnica conhecida como “mindfulness”, desenvolvida em 1979 por Jon Kabat-Zinn, professor da Escola Médica da Universidade de Massachussets.
Segundo reportagem do jornal “Folha de São Paulo” (de 30/1/2011), a meditação “mindfulness” previne novos episódios depressivos (demonstrada em artigo da “Archives of General Psychiatry”) até sintomas de esclerose múltipla (estudo publicado pela conceituada “Neurology”).
Ainda de acordo com a mesma reportagem, estudos realizados pela Harvard Medical School em conjunto com um instituto de neuroimagem da Alemanha e a Universidade de Massachussets revelaram que a meditação “mindfulness” provoca mudanças no cérebro com apenas oito semanas de prática (artigo publicado na “Psychiatry Research: Neuroimaging”).
É indiscutível que os benefícios dessa prática são enormes e a reportagem ainda acrescenta estudos comprovando a diminuição do estresse, a melhora da aprendizagem, da memória, e das emoções.
O que é mais interessante em tais estudos, como descreveu Sonia Brucki, pesquisadora do departamento científico de neurologia cognitiva e do envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, é a capacidade do cérebro adulto de ser moldado, demonstrando a plasticidade cerebral e o aumento da massa cinzenta no hipocampo.
Sem dúvida, os estudos nessa área ainda revelarão coisas surpreendentes, e a meditação será uma das grandes ferramentas do futuro como técnica de relaxamento, qualidade de vida e até de cura de sintomas envolvendo a psique e o soma.
Alexandre Campelo é escritor de obras voltadas para o yoga e o cristianismo. De 2002 a 2007, participou de um projeto transdisciplinar na Universidade Católica de Brasília na qual desenvolveu estudos relativos às antigas tradições do yoga e do cristianismo primitivo. Formado em pedagogia, cursou quatro anos de direito e dois de psicologia. Com pós-graduação em teologia, ministra cursos, palestras, workshop em várias cidades do Brasil, sempre abordando temas que promovem o diálogo entre yoga e cristianismo. Kriya yogi pela Self-Realization Fellowship, organização fundada por Paramahansa Yogananda em 1920, Campelo também é o idealizador da comunidade virtual intitulada YogaBook (http://yogabook.com.br/) que reúne conteúdo yogi com recursos tecnológicos para palestras e cursos ao vivo. Como escritor é autor de três obras: “O cristianismo original e a unidade das cinco religiões”, de “Francisco, o grande yogi de Assis” e de “O encantador de pessoas – uma viagem mística aos contos, histórias e ensinamentos da Índia”.








Como o ambiente pode influenciar a nossa mente e qual a preparação propícia para o local de meditação?



