26jun
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Diário de um retorno 4

Por Tetê Pacheco

O fracasso costuma ser uma das piores experiências humanas, porque, desde pequenos, aprendemos que vencer é fundamental. É o que nos diferencia, seja pela força ou pela inteligência. É o que nos torna mais próximos dos deuses.

Toda a nossa atormentada cultura nos leva a crer nisso e manter, sob todas as formas possíveis, essa fé.

Acho sempre engraçado quando alguém diz que não é religioso. Religião não é algo só para igrejas, fé não é só sobre templos, santos e textos sagrados. De um certo ângulo, nossa sociedade é fervorosa nas suas crenças de que o trabalho salva, na adoração de marcas de tênis, carros e refrigerantes.

Frequentar shopping centers religiosamente, amar grifes como a si próprio. Esse amor por marcas, que nos seus DNAs marqueteiros propagam a ideia da salvação, da superação dos limites, é bem estranho, não?

Adoro uma frase do cartunista americano Hugh MacLeod: “Você pode amar marcas ou produtos mas eles não podem te corresponder”.

Como eu ia dizendo, esse é um texto sobre fracasso; e sobre como cada dia mais, acredito que a vida sem ele não faz o menor sentido. Se o medo de fracassar é maior que nós, só  nos resta a imobilidade.

Vencer ou fracassar são faces da mesma moeda, não podem se perpetuar. São consequências naturais da vida.

Hoje fracasso, amanhã vitória, e assim sucessivamente. Como não dá para ser sempre dia ou sempre noite, não é possível ser eternamente feliz e nenhuma infelicidade veio para ficar.

Acredito e tento praticar diariamente essa percepção. Dessa forma consigo não me culpar pelos meus fracassos, nem ficar certa das minhas vitórias. Domingo consegui praticar! Oba!

Hoje não. Mas a vida continua.

Tetê Pacheco é mãe do Bento e do Otto. É publicitária e criadora do Agenda Amiga. Tem muitos planos e projetos para ontem. E muitas ideias e desejos para amanhã. Hoje está tentando voltar a praticar Yoga.

 

 

21mai
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Diário de um Retorno 3

Por Tetê Pacheco

Alguns verbos, quando conjugados no passado, costumam nos dar uma sensação de alegria. Como se o passado fosse uma conquista. Verbos como fui, vi, senti. Mas o desafio disso é conseguir enxergar que no fundo não é alegria o que sentimos, é só sensação de algo realizado. Uma ilusão. O que ficam são apenas memórias, imagens, sons, cores, que muitas vezes sequer correspondem à realidade. Alegria não pode ser algo que ficou no passado. Alegria só pode ser algo que está sendo sentido no exato momento em que está sendo vivido. Seja lá o que quer que seja. Vivemos numa era na qual exibir nossos feitos nos dá a ilusão de sermos melhores do que seríamos caso ninguém soubesse o que fizemos.

Tudo nos leva para a exibição das nossas qualidades. Quando fazemos isso, estamos (eu, incluída!) projetando algo que desejamos. E, de novo, não é a alegria do presente que vivemos, mas uma espécie de algo que mais à frente vai nos dar satisfação e por isso nos movemos.

Tenho tentado esse retorno para a prática de Yoga e tenho me concentrado aos domingos pois, além de ser um dia mais disponível, é também o dia em que um certo culto às coisas paira no ar.  Domingo é um dia para refletir, pelo menos os meus são. Detesto os movimentos bruscos, os trânsitos pesados, as grosserias dos atarefados, dos estúpidos e dos apressados. Não sei o porquê, mas parece que o domingo nos imuniza um pouco disso tudo. Então, nesse domingo, acordei, não convidei ninguém para ir comigo e parti para a minha prática. Sozinha. Enquanto aquilo acontecia, eu garanto que senti a verdadeira alegria. Sei que você sabe do que estou falando. Sensação de bem-estar total.

Assim que a aula acabou, agradeci muito. Agradeci a mim e ao universo ao redor. E, depois, parti para o exercício mais difícil de todos: o de esquecer. De não aproveitar e me exibir da conquista, não ficar achando que ganhei da preguiça. Exercitei a consciência da ação realizada e assim que acabou (já tinha acabado). Não estou pregando o desprezo. Estou tentando acordar para o desapego, que começa na gente e depois vira outras ações.

Não tem passado na minha prática do último domingo, nem tem futuro no domingo próximo. Mas aqui, enquanto escrevo, existe uma alegria imensa.

Namastê.

Tetê Pacheco é mãe do Bento e do Otto. É publicitária e criadora do Agenda Amiga. Tem muitos planos e projetos para ontem. E muitas ideias e desejos para amanhã. Hoje está tentando voltar a praticar Yoga.

 

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